4. ECONOMIA  A EMPINADA DO DLAR

A alta na cotao traz novos riscos para a economia brasileira, e o governo agora promete interferir menos no cmbio.
MARCELO SAKATE

     A inflao continua elevada, o buraco nas contas pblicas se aprofunda e amplia-se o desequilbrio nas transaes externas. A fragilizao nesses trs alicerces pe era risco a incipiente retomada econmica. Essa  a pssima notcia. A boa: as recentes medidas tomadas pelo governo devem ser saudadas como uma esperada inflexo, em que o experimentalismo e o intervencionismo cedem espao a polticas convencionais e racionais.  o caso da deciso do Banco Central, o BC, de agir mais energicamente para debelar a alta nos preos. Na semana passada, deu-se uma tentativa de normalizar o mercado de cmbio. Diante da valorizao do dlar, o governo eliminou a cobrana do imposto sobre operaes financeiras (o IOF) que recaa no investimento de estrangeiros em renda fixa, essencialmente em ttulos pblicos e privados. Esse tributo, pedgio pago pelo dinheiro externo ao ingressar no pas, vigorava desde 2010, quando o governo tentava, ento, coibir uma queda mais acentuada do dlar. O objetivo, agora, vai na direo contrria. "Est em curso uma mudana de rumo da poltica macroeconmica", diz Alberto Ramos, chefe da equipe de pesquisas econmicas para a Amrica Latina do Goldman Sachs. "A novidade  muito bem-vinda, embora um pouco tardia. Existe hoje um equilbrio ruim na economia brasileira com crescimento baixo e inflao alta, num ambiente de baixa competitividade."
     A presidente Dilma Rousseff caminha para o seu terceiro ano de avano tpido no PIB, em um ritmo ao redor de 2% ao ano. O governo, agora, d a entender que no conseguir romper o marasmo sem reconquistar a confiana dos investidores. Os recursos aplicados na expanso da capacidade produtiva deram sinais de recuperao, mas, ainda assim, permanecem aqum do considerado mnimo necessrio para a manuteno sustentvel de uma velocidade mais acelerada de crescimento da economia. A chamada taxa de investimento  de pouco mais de 18% do PIB no Brasil, contra ndices de 25% no Chile e no Mxico e superior a 40% na China. A insuficincia de capitais nacionais faz com que a economia brasileira dependa do dinheiro externo para financiar a ampliao de fbricas e a construo de obras de infraestrutura. At recentemente, no entanto, as aes do governo restringiam a entrada desses recursos. 
     Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ser reduzida, daqui para a frente, a interferncia no cmbio. Embora a desvalorizao do real seja desejvel para os exportadores, porque aumenta a sua competitividade no mercado internacional, ela traz efeitos nocivos, especialmente quando ocorre abruptamente. O primeiro efeito colateral do dlar mais caro  o impacto na inflao. Estima-se que cada valorizao de 10% na taxa de cmbio resulte em um aumento de 0,30 a 0,50 ponto porcentual na inflao anual. O outro temor est relacionado ao endividamento das empresas brasileiras no exterior. Em trs anos, a dvida quase dobrou, passando de 103 bilhes de dlares, em 2009, para 199 bilhes de dlares, no fim de 2012. Na crise financeira de 2008, a cotao do dlar disparou em poucos dias para 2,50 reais, trazendo dificuldades para uma srie de empresas, entre elas a Sadia e a Aracruz. 
     O ponto mais frgil  a administrao das contas pblicas. A combinao de baixo crescimento econmico com aumento do dficit oramentrio serviu de combustvel para o alerta dado pela agncia de classificao de risco Standard & Poor's, na quinta-feira, de que a avaliao de crdito do Brasil poder ser rebaixada. A piora teria efeitos prticos danosos para o governo e as empresas brasileiras, como a Petrobras, que veriam subir o custo no crdito de suas operaes. A reao dos investidores foi negativa: na sexta-feira, a Bovespa caiu mais de 2%, para o menor patamar em quase dois anos. Ao pisar no acelerador dos gastos pblicos, o governo tambm dificulta o trabalho do BC no controle dos preos e ocupa um espao na demanda interna que deveria ser preenchido pelos investimentos produtivos. "Causa perplexidade o fato de que no houve ainda um sinal de austeridade nas contas pblicas", diz Carlos Kawall, ex-secretrio do Tesouro e atualmente economista-chefe do Banco J. Safra. "Chegamos ao ponto de o prprio BC informar que ter de ser mais duro na poltica monetria em um ambiente de poltica fiscal expansionista. Essa falta de coordenao  a grande falha da poltica econmica." O governo, que s decide por meio de sobressaltos, deve provas mais objetivas de que optou pela racionalidade.

AS MANOBRAS CAMBIAIS
Cotao do dlar (em reais)
Out/10: 1,70. Elevado para 6% o imposto sobre operaes financeiras (IOF) sobre investimentos de estrangeiros em ttulos pblicos e de empresas.
Jan/11: 1,67
Jun/11: 1,56
Set/11: 1,85
Out/11: 1,69
Dez/11: 1,88. Caiu o IOF para aplicaes feitas por estrangeiros em aes brasileiras, tributo que era de 2% desde 2009.
Fev/12: 1,71
Mai/12: 2,02
Nov/12: 2,11
Jan/12: 1,99
Abr/13: 2,00
Jun/13: 2,12 (em 6 de junho). Com o dlar em trajetria de alta, foi zerado o IOF para aplicaes deitas por estrangeiros em ttulos (renda fixa).
Fontes: Ipea Data e Banco Central.

AMARRA AO0 CRESCIMENTO
A taxa de investimento brasileira  baixa e no avana, limitando a expanso da economia (primeiro trimestre, em % do PIB)
Fonte: IBGE
2009: 17,0%
2010: 19,2%
2011: 19,5%
2012: 18,7%
2013: 18,4%


